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        <journal-title>Entretextos. Revista de Estudios Interculturales desde Latinoamérica y el Caribe</journal-title>
        <abbrev-journal-title abbrev-type="publisher">Entretextos</abbrev-journal-title>
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        <publisher-name>Universidad de La Guajira</publisher-name>
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      <article-id pub-id-type="doi">https//doi.org/10.5281/zenodo.17850912</article-id>
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          <subject>Artículos/Articles/Aküjialu’u</subject>
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        <article-title>Entre Jolibert e Freire: caminhos para uma educação crítica e
antirracista</article-title>
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          <trans-title>Entre Jolibert y Freire: caminos para una educación crítica y
antirracista</trans-title>
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          <trans-title>Between Jolibert and Freire: pathways to a critical and anti-racist
education</trans-title>
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        <contrib contrib-type="author">
          <contrib-id contrib-id-type="orcid">https://orcid.org/0000-0031434-7796</contrib-id>
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            <surname>Araujo</surname>
            <given-names>Mairce da Silva</given-names>
          </name>
          <degrees>Doutora</degrees>
          <bio>
            <p>Professora titular da Universidade do Estado do Rio de
Janeiro. Pós-doutorado no Instituto Politécnico de Leiria, Portugal e na
Faculdade de Educação - Unicamp. Doutorado em Educação, pela UFRJ – 2003.
Mestrado em Educação, pela UFF – 1994. Pedagogia pela Faculdade de Filosofia
Ciências e Letras de Barra do Piraí – 1982. Procientista. Docente do Programa
Processos Formativos e Desigualdades Sociais, Líder do Grupo de Pesquisa Vozes
da Educação: memórias, histórias e formação docente. Coordenadora da pesquisa
Alfabetização, memória e formação de professores e relações etnicorraciais
(ALMEFRE). Coordenadora do grupo de pesquisa Rede de docentes que narram sobre
Infância, Alfabetização, Leitura e escrita (REDEALE).</p>
          </bio>
          <email>mairce@hotmail.com</email>
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        </contrib>
        <contrib contrib-type="author">
          <contrib-id contrib-id-type="orcid">https://orcid.org/0000-0001-7317-8393</contrib-id>
          <name>
            <surname>Faria</surname>
            <given-names>Danusa Tederiche Borges de</given-names>
          </name>
          <bio>
            <p>Doutoranda e mestre em Educação pelo Programa de
Pós-graduação Processos Formativos e Desigualdades Sociais da Universidade do
Estado do Rio de Janeiro – PPGedu/UERJ. Pós-graduada com especialização em
Gestão Escolar e graduada em Pedagogia pela Faculdade de Formação de
Professores da Universidade do Estado do Rio de Janeiro – FFP/UERJ. Integrante
do grupo de pesquisa Alfabetização, Memória, Formação Docente e Relações
Étnico-raciais – ALMEFRE. Vice coordenadora da Rede de Docentes que Estudam e
Narram sobre Infância, Alfabetização, Leitura e Escrita – REDEALE. Tutora
profissional da pessoa com deficiência e coordenadora no projeto Inclusive
Luísa pela Agência de Iniciativas Cidadãs - AIC.</p>
          </bio>
          <email>danusa.tederiche@hotmail.com</email>
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        <contrib contrib-type="author">
          <contrib-id contrib-id-type="orcid">https://orcid.org/0009-0005-4990-7505</contrib-id>
          <name>
            <surname>Lima</surname>
            <given-names>Geni de Oliveira</given-names>
          </name>
          <bio>
            <p>Doutoranda e mestre em
Educação pelo PPGedu/UERJ. Pós-graduada com especialização em Orientação
Educacional, Supervisão Educacional, Psicopedagogia e Arteterapia em Educação e
Saúde (UCAM), graduada em Pedagogia pela Faculdade de Formação de Professores da
Universidade do Estado do Rio de Janeiro – FFP/UERJ. Integrante do grupo de
pesquisa Alfabetização, Memória, Formação Docente e Relações Étnico-raciais –
ALMEFRE. Integrante da Rede de Docentes que narram sobre Infância,
Alfabetização, Leitura e Escrita – REDEALE. Pesquisadora associada a Associação Brasileira de
Pesquisadores/as Negros/as -(ABPN) Professora da Rede Municipal de São
Gonçalo/RJ e da Universidade Candido Mendes/UCAM.</p>
          </bio>
          <email>genilima@gmail.com</email>
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          <label>1</label>
          <institution content-type="orgname">Universidade do Estado do Rio de Janeiro</institution>
          <institution content-type="original">Universidade do Estado do Rio de Janeiro, Rio de
Janeiro, Brasil</institution>
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            <city>Rio de
Janeiro</city>
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          <country country="BR">Brasil</country>
        </aff>
      <author-notes>
        <fn fn-type="coi-statement">
          <label>Conflictos de interés</label>
          <p>No existe conflicto de interés entre los/as autores/as del artículo.</p>
        </fn>
      </author-notes>
      <pub-date publication-format="electronic" date-type="pub">
        <day>02</day>
        <month>01</month>
        <year>2026</year>
      </pub-date>
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        <season>Jan-Apr</season>
        <year>2026</year>
      </pub-date>
      <volume>20</volume>
      <issue>39</issue>
      <fpage>188</fpage>
      <lpage>205</lpage>
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          <month>09</month>
          <year>2025</year>
        </date>
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          <day>19</day>
          <month>11</month>
          <year>2025</year>
        </date>
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 <copyright-statement>Copyright © 2026, the authors</copyright-statement>
 <copyright-year>2026</copyright-year>
 <copyright-holder>the authors</copyright-holder>
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      <abstract>
        <title>Resumo</title>
        <p>O presente artigo estabelece um diálogo entre a Pedagogia de Projetos,
de Josette Jolibert, e a Pedagogia da Autonomia, de Paulo Freire, tendo como
base as experiências vividas nos cotidianos escolares de duas redes públicas
municipais, de São Gonçalo, município do Estado do Rio de Janeiro, a partir da
articulação entre redes e coletivos docentes. Buscamos nessa escrita refletir
sobre práticas pedagógicas que articulam alfabetização crítica, relações
étnico-raciais e interculturalidade, evidenciando a centralidade da escuta, do
diálogo e do protagonismo discente que visam uma educação comprometida com a
transformação social, a partir da valorização dos saberes docentes e discentes,
em uma perspectiva crítica e emancipadora. </p>
      </abstract>
      <trans-abstract xml:lang="es">
        <title>Resumen</title>
        <p>Este artículo establece un diálogo entre la Pedagogía por Proyectos, que
plantea Josette Jolibert y la Pedagogía de la Autonomía que plantea Paulo
Freire, a partir de las experiencias de la vida escolar cotidiana en dos
escuelas públicas municipales de São Gonçalo, municipio del estado de Río de
Janeiro, mediante la articulación entre redes y colectivos docentes. En este
artículo, buscamos reflexionar sobre las prácticas pedagógicas que articulan la
alfabetización crítica, las relaciones étnico-raciales y la interculturalidad,
destacando la centralidad de la escucha, el diálogo y el empoderamiento
estudiantil, buscando una educación comprometida con la transformación social,
basada en la valoración del conocimiento docente y estudiantil, desde una
perspectiva crítica. </p>
      </trans-abstract>
      <trans-abstract xml:lang="en">
        <title>Abstract</title>
        <p>This article
stages a dialogue between Josette Jolibert's Project-Based Pedagogy and Paulo
Freire's Pedagogy of Autonomy, grounded in everyday school life in two
municipal public schools in São Gonçalo, in the state of Rio de Janeiro, and in
the work of teacher networks and collectives. We seek to reflect on pedagogical
practices that bring together critical literacy, ethnoracial relations, and
interculturality, highlighting the centrality of listening, dialogue, and
student empowerment in the pursuit of an education committed to social
transformation. The discussion is anchored in the valuing of teachers' and
students' knowledge from a critical.</p>
      </trans-abstract>
      <kwd-group>
        <title>Palavras-chave</title>
        <kwd>educação emancipadora</kwd>
        <kwd>pedagogia
de projetos</kwd>
        <kwd>formação docente</kwd>
      </kwd-group>
      <kwd-group xml:lang="es">
        <title>Palabras clave</title>
        <kwd>educación emancipadora</kwd>
        <kwd>pedagogía
de proyectos</kwd>
        <kwd>formación docente</kwd>
      </kwd-group>
      <kwd-group xml:lang="en">
        <title>Keywords</title>
        <kwd>emancipatory education</kwd>
        <kwd>project-based pedagogy</kwd>
        <kwd>teacher education</kwd>
      </kwd-group>
      
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      </counts>
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  <body>
  <sec>
    <title><bold>Pontos de partida: uma breve reflexão</bold></title>
      <p><disp-quote><p><italic>Gente preta é bonita, tem que
botar isso na cabeça!</italic> </p></disp-quote></p>
      <p><disp-quote><p>(Vitória, 2024)</p></disp-quote></p>
      <p>Abrimos o presente
artigo com a afirmação de Vitória, uma menina de 10 anos, em sala de aula, que
nos instigou à reflexão sobre a potência de um trabalho pedagógico desenvolvido
a partir de projetos e comprometido com a formação de um sujeito crítico e autônomo,
tendo como interlocutores Josette Jolibert e Paulo Freire.  </p>
      <p>Vinculadas ao
Programa de Pós-graduação Processos formativos e desigualdades sociais da
Universidade do Estado do Rio de Janeiro (PGEDU/UERJ), nossos estudos e
investigações se debruçam sobre o campo da formação docente inicial e
continuada, tendo como centralidade as questões da aprendizagem-ensino da
leitura e da escrita. Investigando a formação docente no/do/com o cotidiano
escolar (<xref ref-type="bibr" rid="B15">Oliveira, Alves, 2021</xref>) temos entremeado as reflexões sobre
alfabetização crítica, relações etnicorraciais, em diálogo com redes e
coletivos de docentes latino-americanos, comprometidas com a construção de uma
educação democrática e emancipadora na América-latina. Dentre tais coletivos,
destacamos a Red Colombiana para la Transformación de la Formación Docente en
Lenguaje, com quem dialogamos no presente artigo.</p>
      <p>Nossos diálogos com
as redes e coletivos de docentes latino-americanos têm se dado a partir da Rede
de docentes que narram sobre alfabetização, leitura, escrita e infância
(REDEALE), coletivo por nós coordenado, vinculado à Faculdade de Formação de
Professores, da Universidade do Estado do Rio de Janeiro. Criada em 2015, na
cidade de São Gonçalo, a REDEALE, em seus dez anos de existência, vem tecendo
teias, enredando fios, costurando experiências instituintes de formação na
interlocução universidade-escola básica-movimentos sociais. Quando falamos em
experiências instituintes estamos nos referindo àquelas que se contrapõem aos
modos hegemônicos e colonizadores de
pensar, pesquisar e produzir conhecimento sobre a escola, sobre os processos de
aprender-ensinar, sobre a apropriação da leitura e da escrita. </p>
      <p>Compreendemos as
redes e coletivos docentes latino-americanos como movimentos instituintes de
formação que nos ajudam a pensar uma educação e uma cultura outra, pautadas
pela “afirmação intransigente da igualdade humana, em suas dimensões
educacionais e escolares, políticas, econômicas, sociais e culturais (<xref ref-type="bibr" rid="B14">Linhares;
Heckert, 2009, p.6</xref>).” </p>
      <p>A partir de
Linhares (<xref ref-type="bibr" rid="B13">2007</xref>), entendemos nossas experiências vivenciadas no contexto das
interlocuções com redes e coletivos latino-americanos como um movimento de
formação docente insurgente e instituinte, que ultrapassando limites e
fronteiras geográficas e institucionais, delineia sentidos de uma educação
libertadora e emancipatória. </p>
      <p>Assim, nossos
propósitos se afinam com a Red Colombiana para la Transformación de la
Formación Docente en Lenguaje, “fundada por maestros e maestras em 1988, com el
objeto de promover el Trabajo em las aulas a partir de proyectos y de la
interlocución com las entidades interesadas em la cualificación permanente de
el sistema educativo”, na medida em que também apostamos na potencialidade do
trabalho por projetos na escola e/ou na sala de aula, como uma perspectiva
potente de produção de uma educação mais ética e plural.</p>
      <p>Nos encontros e
diálogos com redes e coletivos de docentes latino-americanos temos fortalecido
as redes como espaços de reflexão-formação entre docentes e estudantes que
buscam romper com uma concepção formativa pautada pela linearidade, pela
sequencialização de etapas, que não reserva aos docentes o protagonismo de suas
ações pedagógicas, concepção característica de projetos tecnicistas,
neocolonizadores. Nas palavras de Duhalde, os processos formativos
potencializados pelos encontros entre redes e coletivos de docentes
latino-americanos, caminhando numa direção oposta às perspectivas
colonizadoras, têm <italic>generar âmbitos más
democráticos, donde la horizontalidad es posible, en tanto cada uno de los
miembros del colectivo as una que siempre hay algo que enseñar y algo que
aprender </italic>(<xref ref-type="bibr" rid="B4">2009, p.23</xref>)<italic>.</italic> </p>
      <p>Para Morais (2016)
o trabalho com redes e coletivos docentes traz como potência e desafio de
compreender o papel do grupo na ressignificação da formação docente e da
prática pedagógica, ao reconhecer as formas próprias e singulares de ser
professora/r e de <italic>pensarfazer</italic> escola,
que se revelam nos movimentos entre pares. O diálogo entre docentes de países
latino-americanos tem permitindo aos coletivos identificar a similiaridade de
desafios enfrentados nas práticas cotidianas, demarcadas por políticas educacionais
neoliberais, herança de projetos neocolonizadores que marcam a América Latina,
reafirmando “a urgência e a necessidade da construção de pedagogias
comprometidas com o rompimento com processos educativos colonizadores que se
expressam pela dominação do poder, do ser e do saber” (Araujo, 2022, p. 56). </p>
      <p>Nossos referenciais
teóricos-metodológicos têm se pautado pelo reconhecimento dos docentes como
autores e produtores do conhecimento, na perspectiva do profissional reflexivo
e questionador de suas práticas, como nos legaram, dentre outros teóricos, Schön,
(1992); Garcia, (<xref ref-type="bibr" rid="B8">2001</xref>); Freire, (<xref ref-type="bibr" rid="B6">1996</xref>, <xref ref-type="bibr" rid="B7">2020</xref>). Ao refletir sobre seus fazeres e
saberes cotidianos, em diálogo com seus pares, o docente não só amplia a
compreensão sobre o processo ensino-aprendizagem, como também mobiliza seu
processo formativo, vivendo o que nomeamos como movimento de
investigação-formação. </p>
      <p>Tal opção nos levou
ao encontro de pedagogias como: a Pedagogia por Projetos, de Josette Jolibert <italic>et al</italic>. (1994), que instiga o processo de
construção de conhecimento de professores e estudantes no cotidiano da prática
docente, e a Pedagogia emancipatória de Freire, que prega a indissociabilidade
entre teoria e prática, entre o ensinar e aprender, no movimento
ação-reflexão-ação.</p>
      <p>Desde a década de 1960, Paulo Freire tem defendido a
necessidade urgente de romper com concepções teórico-práticas do processo
alfabetizador baseadas na “memorização visual e mecânica de sentenças, de
palavras, de sílabas, desgarradas de um universo existencial – coisas mortas ou
semimortas” (Freire, 1978, p. 111). Em contraposição a esse modelo, ele propõe
práticas que favoreçam atitudes de criação e recriação. Em outras palavras,
práticas que contribuam para a formação de crianças, jovens e adultos leitores
e produtores de textos.</p>
      <p>Inspiradas nos referenciais freireanos também temos
defendido que </p>
      <p><disp-quote><p>As culturas e os mundos próprios das crianças precisam
ser incorporados ao cotidiano escolar como parte do currículo e de um processo
de alfabetização que propiciem a elas “formas de dizer pela escritura que as
possibilitem assumir diferentes papéis de narradoras, escritoras, leitoras,
protagonistas” (Araújo; Castro, 2019, p. 239). Em outras palavras, uma
alfabetização que inicie as crianças “em um universo cultural complexo em que a
escrita aparece como mediadora de valores e formas de conhecimento” (Brito,
2012, p. 13), sendo o domínio do código uma decorrência desse processo, sem
desprestigiar a cultura no qual a criança já está inserida, numa concepção que
compreende que a linguagem utilizada na escola não pode estar desvinculada das
práticas cotidianas fora da escola. (Araujo, Pestana, Abreu, 2021, p.1689)</p></disp-quote></p>
      <p>Os estudos de Jolibert, enfatizando aspectos
cognitivos, afetivos e sociais do aprendizado, também apontam para um processo
ensino-aprendizagem da leitura e da escrita mais significativo e conectado à
realidade dos alunos, que possa promover uma aprendizagem ativa e
contextualizada,</p>
      <p><disp-quote><p>É na medida em que se vive no meio social sobre o qual
se pode agir, no qual é possível com outros discutir, realizar, avaliar, que
são criadas as condições mais favoráveis para o aprendizado — não só da
criança, não só para a leitura — mas de tudo e todos. (Jolibert, 1994, p.5)</p></disp-quote></p>
      <p>Se o aprendizado
acontece em contextos interativos para todas as pessoas, assim também a criança
não deve ser percebida como um mero receptor, pelo contrário, a criança aprende
na relação com o outro, com o mundo. </p>
      <p>A partir desses
referenciais, temos como propósito, nessa escrita, compartilhar algumas
experiências que entendemos como instituintes, que fazem parte de nossos
repertórios de investigação-formação, a fim de refletir sobre a potência do
trabalho pedagógico referenciado nos aportes freireanos e na pedagogia de
projeto. </p>
      <p>A primeira
experiência, retratada na fala de Vitória, que trouxemos em epígrafe, aconteceu
na E M Irene Barbosa Ornellas e enuncia um projeto comprometido com a
construção de uma escola e de uma sociedade antirracista, que nasce a partir de
uma escuta atenta e sensível aos rumores da sala de aula. Já a segunda
experiência evidencia a disposição dos docentes da Escola Municipal Evadyr
Molina, também da rede pública de São Gonçalo, em investir na elaboração de
currículos interculturais e decoloniais, que favoreçam a construção de visões
de mundo mais amplas, mais democráticas e emancipadoras. No diálogo com as
experiências entrecruzamos as contribuições de Jolibert e de Freire, no sentido
de pensar um processo de ensino-aprendizagem da leitura e da escrita que não
está preso a uma técnica de ensino, mas que ofereça instrumentos aos estudantes
para intervir em sua própria realidade.</p>
      <p>Ambas as
experiências tiveram como cenário a cidade de São Gonçalo, na qual se localiza
a Faculdade de Formação de Professores, da Universidade do Estado do Rio de
Janeiro, única instituição de nível superior pública do município. Com intuito
de contextualizar melhor o local onde as experiências aconteceram fazemos uma
breve apresentação da cidade e da faculdade. </p>
      <p>O município de São
Gonçalo separa-se da capital, a cidade do Rio de Janeiro, por uma ponte de
treze quilômetros de extensão, com uma população próxima a um milhão de
habitantes, se constituindo como o segundo município em população do Estado do
Rio de Janeiro e pode ser caracterizada, como uma cidade negra, na medida em
que 62,9 % da sua população se autodeclarou como parda 45,9% e negra 17%, no
Censo de 2022. </p>
      <p>O passado colonial
da cidade, cuja origem remonta aos primórdios da própria existência do país,
traz as marcas da colonização de terras, que originalmente pertenciam aos
índios Tamoios, e se desenvolveu economicamente a partir da criação de
fazendas, engenhos de açúcar e aguardente, sendo a mão de obra escravizada a
base desse desenvolvimento. Este passado deixou as marcas de expropriação, da
ausência de investimentos e de desmembramento do espaço territorial de forma
não planejada, corroborando para que a cidade fosse transformada numa grande
periferia. Pobreza material, que, contudo, não se reflete como pobreza
cultural. A história colonial, a influência nordestina e as manifestações
populares se encontram, criando uma identidade única. Os moradores da cidade,
se reconhecem como produtores de cultura, a partir dos diálogos promovidos
pelas escolas, pelas igrejas, pelas escolas de samba e pelos movimentos
sociais. </p>
      <p>A cidade de São
Gonçalo abriga a Faculdade de Formação de Professores da UERJ, instituição que
ao longo de seus cinquenta anos de existência tem se firmado como um importante
centro de formação de professores da região e participado ativamente da discussão
sobre as questões centrais da vida social, política e econômica da cidade de
São Gonçalo. O Programa de Pós-graduação em Educação: processos formativos e
desigualdades sociais (PPGEdu/FFP), ao qual as autoras se filiam, teve início
em 2009 com a implantação do Mestrado e em 2019 a implantação o curso de
Doutorado. O Programa possui forte política de internacionalização, através de
parcerias e convênios firmados com outras universidades e centros de pesquisa
da América Latina, da África e da Europa. O impacto social do Programa na
educação pública é explícito pelo perfil dos mestrandos, doutorandos e
egressos, em sua maioria, docentes que trabalham na educação básica pública. </p>
      <p>A partir desses contextos,
trazemos a seguir as experiências que mobilizaram as reflexões que estamos
propomos no presente artigo.</p>
    </sec>
  <sec>
    <title><bold>Como nascem os projetos no miúdo da sala de aula?</bold></title>
      <p><disp-quote><p><italic>Gente preta é bonita, tem que botar isso na cabeça!</italic> A ênfase de Vitória, 11 anos, em contraponto a
posição de Igor, 12 anos, que se reconhecia preto, mas não achava nenhum preto
bonito, ecoou na sala de aula e provocou a discussão. Heloisa, a professora, que, no primeiro
momento foi impactada pela voz de Vitória, rapidamente, se recompôs e
retrucou: como aparece a beleza negra
nos corpos de meninos e meninas? As crianças falaram que era na boca, nos
dentes, nos cabelos, na pele, nos olhos... Então, a professora sugeriu que
fizessem pesquisa em casa e recortassem de revistas e jornais imagens
referentes ao que haviam dito, para que no dia seguinte fizessem um cartaz
coletivo. (<xref ref-type="bibr" rid="B12">Lima, 2022</xref>, pag.120)</p></disp-quote></p>
      <p>No debate entre as crianças Vitória e Igor, sobre quem é bonito e quem é
feio em nossa sociedade, que tem como pano de fundo a questão do racismo, tão
bem conduzido pela Professora Heloisa, emergiam as possibilidades e a potência
de um trabalho pedagógico pautado pelo compromisso ético, estético e político com
a formação de um sujeito autônomo. O exercício da criticidade (<xref ref-type="bibr" rid="B6">Freire, 1996</xref>,
p.34), que favorece a passagem do pensamento ingênuo, eivado de preconceitos e
ideologias, ao pensamento crítico, reafirmava a sala de aula como um espaço de
luta por uma sociedade antirracista e mais digna para todas as pessoas.</p>
      <p>O episódio acima foi extraído da dissertação de mestrado
intitulada “Memórias, Saberes e Fazeres de Professoras
Alfabetizadoras do Município de São Gonçalo: 
a construção de propostas antirracistas tecidas com o cotidiano escolar”
(<xref ref-type="bibr" rid="B12">Lima, 2022</xref>).  A pesquisa, de
natureza narrativa e afinada com os princípios da pesquisa-ação, foi realizada
na Escola Municipal Irene Barbosa Ornellas, no bairro Jardim Catarina, na cidade de São
Gonçalo, região metropolitana do Estado do Rio de Janeiro. Um território
demarcado pelo baixo índice de desenvolvimento humano (IDH).</p>
      <p>Do compromisso
ético, estético e político da autora, uma professora pesquisadora negra e
coordenadora pedagógica, nasceu uma pesquisa da urgência de assumir na escola
e, consequentemente, nas práticas pedagógicas, uma postura comprometida com a
educação antirracista. O marco legal para a promoção de
práticas antirracistas no cotidiano escolar sustentava-se na Lei
10.639/ 2003, que tornou
obrigatório o ensino da história e cultura africana e afro-brasileira nas
escolas públicas e privadas do Brasil.</p>
      <p>Muitas professoras
diziam não se sentirem preparadas para lidar com situações de racismo que
emergiam no cotidiano escolar. Nesse contexto foi proposto ao grupo de docentes
a realização de rodas de conversas que compartilhando experiências
contribuíssem para subsidiar um projeto pedagógico antirracista na escola. </p>
      <p>O livro <italic>O pequeno manual antirracista, </italic>de
Djamila Ribeiro, foi um dos livros escolhidos para leitura, reflexão e acabou
se tornando fonte de inspiração. Situações em que as crianças cobravam das
professoras e da escola uma atitude diante de ataques racistas foram emergindo
durante os estudos do livro. O que fazer? Como fazer? Ainda sem respostas
definidas para tais questionamentos, surgiu a proposta de construir junto com
as crianças um <italic>Manualzinho Antirracista, </italic>no qual as crianças, além de encontrarem
espaço para expor suas ideias e vivências com o racismo, também fossem
convocadas a construir caminhos para combatê-lo. </p>
      <p>A escrita do Manualzinho antirracista com as crianças
demandou do grupo de professoras um planejamento de ações e estudos que
pudessem trazer as informações, as reflexões e os procedimentos pedagógicos
favoráveis aos objetivos propostos. As etapas do projeto foram sendo
construídas coletivamente envolvendo aulas expositivas, oficinas e atividades
de arte. Para construção do Manualzinho Antirracista foram propostas questões
para as crianças a serem abordadas do jeito que quisessem: a partir de textos,
desenhos, colagens, poesias, letras de músicas, etc. As respostas foram
organizadas em sete capítulos, que compuseram o manual.</p>
      <p>As questões norteadoras foram: O que é racismo? Eu
discrimino ou sou discriminado por causa do meu cabelo, minha cor da pele, meu
nariz ou minha boca? O que significa ser negro para você? Escolha modelos de
beleza negra. Evidencie uma pessoa negra bem sucedida. Como combater o racismo?
Denuncie o racismo. </p>
      <p>Nascia assim um Manualzinho antirracista: “feito por
muitas mãos, cabeças e corações [que] provocou reflexões, definiu diretrizes e
instruções de enfrentamento ao racismo. (Lima, p. 108).” </p>
      <p>Selecionamos a seguir algumas respostas das crianças
com intuito de socializar suas reflexões e deixá-las reverberar em nós.</p>
      <p><disp-quote><p><bold>O que é o racismo?</bold></p></disp-quote></p>
      <p><disp-quote><p><italic>Racismo é quando as pessoas pretas são tratadas
piores que as pessoas brancas (Mayara, 8 anos)</italic></p></disp-quote></p>
      <p><disp-quote><p><italic>Quando acham que uma pessoa é ruim só porque é
pretinha (Bruno, 9 anos)</italic></p></disp-quote></p>
      <p><disp-quote><p><bold>O que é ser negro?</bold></p></disp-quote></p>
      <p><disp-quote><p><italic>Ser negro é bom, mas quando querem matar o
negro é ruim ser negro (Francisco, 10 anos)</italic></p></disp-quote></p>
      <p><disp-quote><p><bold>Como combater o racismo?</bold></p></disp-quote></p>
      <p><disp-quote><p><italic>Tem que falar com a professora. Mas tem que
fazer alguma coisa! (Fernanda, 8 anos)</italic></p></disp-quote></p>
      <p><disp-quote><p><italic>Tem que falar que todo mundo é igual e escolher
os alunos pretos pra fazer as coisas (Laura, 9 anos)</italic></p></disp-quote></p>
      <p><disp-quote><p><bold>Denunciando o racismo</bold></p></disp-quote></p>
      <p><disp-quote><p><italic>Todas as vezes que eu entro naquele mercadinho
aqui da rua, a moça que trabalha lá fica me olhando estranho e andando atrás de
mim. Ela não faz com os outros garotos. Eu sei que ela faz isso porque eu sou
preto. (Leandro, 9 anos)</italic></p></disp-quote></p>
      <p><disp-quote><p><bold>O racismo tem cura</bold></p></disp-quote></p>
      <p><disp-quote><p><italic>Eu falava umas
coisas pra zoar, mas não falo mais, porque é maldade e é crime.</italic> <italic>(Hiago, 10
anos)</italic></p></disp-quote></p>
      <p>As respostas e
produções das crianças trouxeram denúncias e muitas pistas para a construção de
novos projetos e práticas antirracistas, baseadas na experiência cotidiana<italic>. </italic>Nas
rodas de conversa semanais do grupo docente, as reflexões sobre as narrativas e
sobre os trabalhos produzidos pelas crianças, nas quatro turmas, envolvidas no
projeto, despertou o interesse pela temática etnicorracial para os demais
segmentos da escola. O projeto antirracista tomava corpo e ganhava voz,
deixando de ser uma iniciativa promovida por uma pesquisa, para anunciar outros
modos de viver de uma comunidade inteira, de um povo. </p>
      <p>Como assinalou
Camila, uma das professoras, o trabalho realizado com as crianças sobre as
relações etnicorraciais, reclamava uma intervenção/ mediação, demandando uma
escuta atenta e um posicionamento, suscitando a emergência de práticas
antirracistas. O projeto deixava a ver de forma explícita que as crianças,
cotidianamente, revelavam formas de compreender as dinâmicas do racismo
expressas nas diferenças de tratamento em relação às crianças mais pobres, mais
vulneráveis, na predominância da valorização de uma estética eurocêntrica e nas
experiências de serem preteridas na escola. 
Questões que não podia ser naturalizadas.</p>
      <p>Neste contexto, não
foram apenas as crianças que estavam aprendendo a “ler o mundo” e “a escrever a
palavra”, como dizia Freire, sobre si mesmas, sobre a sociedade e sobre a
história da escravidão no país, também as professoras estavam aprendendo, tanto
sobre os conhecimentos que estão sendo mobilizados, como também sobre o próprio
processo ensino-aprendizagem. As professoras aprendiam que as crianças não são
meras receptoras de informação, pelo contrário, elas aprendem e ensinam na
relação umas com as outras, com a professora, com o mundo. </p>
      <p>Nesse sentido, e em
concordância com Jolibert e Freire, a partir da proposta de projetos é possível
confirmar a escola como um espaço de promoção do diálogo. Um espaço onde é
possível construir movimentos de ação-reflexão-ação com intuito de romper com práticas
racistas, profundamente arraigadas, tanto na estrutura escolar e quanto na
estrutura social. Como nos Freire nos convida a pensar: “ a prática
preconceituosa de raça, de classe, de gênero ofende a substantividade do ser
humano e nega radicalmente a democracia (1996, p. 18) e “ ensinar exige
compreender que a educação é uma forma de intervenção no mundo (1996, p. 38).”</p>
    </sec>
  <sec>
    <title><bold>De fora para dentro, quando a escola recebe uma visita - pedagogia de projeto em movimento</bold></title>
      <p>A segunda
experiência tem como cenário a Escola Municipal Evadyr Molina, outra escola da
rede pública de São Gonçalo da Educação Básica, que atende aproximadamente
quinhentos estudantes do primeiro segmento do Ensino Fundamental. A escola está
localizada no bairro Venda da Cruz, também este bairro periférico da cidade de
São Gonçalo.</p>
      <p>No primeiro
semestre de 2024, nosso coletivo Redeale recebeu na Faculdade de Formação de
Professores e na Escola Municipal Professor Evadyr Molina docentes de coletivos
colombiano e mexicano: Red Latinoamericana para la Transformación de la
Formación Docente en Lenguaje (Colômbia) e Red de Investigadore/as Educativos
em México, respectivamente. </p>
      <p>A disposição da
Escola Municipal Evadyr Molina para a promoção de uma educação intercultural e
decolonial se materializou para nós a partir de um desejo expresso, por uma
professora colombiana, Blanca Bojacá, que visitava nosso grupo de pesquisa, na
Faculdade de Formação de Professores de São Gonçalo, para conhecer uma escola
pública brasileira de ensino fundamental.</p>
      <p>A orientadora
pedagógica, participante do grupo de pesquisa, viu no desejo da professora uma
oportunidade de expansão do currículo escolar que permitiria as crianças o
contato com outra língua, outra cultura, apostando que a iniciativa favoreceria
que estudantes e comunidade escolar pudessem conhecer outro país da América
Latina. Assim, estendeu o convite para que a professora colombiana visitasse a
escola. </p>
      <p>Cotejamos a
experiência vivida com a afirmação de Jolibert (<xref ref-type="bibr" rid="B11">2006</xref>), segundo a qual os
projetos não são uma metodologia completa em si, um manual a seguir à risca,
mas um princípio de organização. É preciso considerar a organização do espaço,
o tempo disponível para a realização do trabalho e ao conjunto de atividades
que se planeja trabalhar. </p>
      <p>A proposta acolhida
pelas professoras e pela equipe pedagógica com muito entusiasmo e animação, deu
origem ao Projeto “A Colômbia na minha escola.” Projeto esse que foi planejado
e vivenciado junto com as crianças rompendo com práticas isoladas e descontextualizadas,
dando lugar ao encontro, ao contato físico (abraços, afagos...), ao diálogo, à
interação social e as trocas de afetos e presentes (doces e livros), que eram
oferecidos às crianças. A escola assumia um papel mais ativo na formação cidadã
das crianças, ampliando o repertório cultural a partir da experiência com
outras culturas.</p>
      <p>Dentre as
atividades planejadas para que as crianças pudessem conhecer a cultura da
Colômbia estavam: painéis com imagens das festas do país e da culinária,
exposição de objetos, projeção de filmes, audição de músicas, leitura e relatos
de pessoas da própria comunidade que conheciam pessoas colombianas ou que já
haviam ido à Colômbia. A proposta provocou a curiosidade das crianças sobre
diversos aspectos relacionados aos modos de viver e as similaridades e
diferenças entre o Brasil e Colômbia. O
desejo de conhecer diferentes culturas foi mitigado pela prática de pesquisa,
protagonizada pelas crianças, que reconheceram a professora colombiana como
fonte e sujeito de suas pesquisas.</p>
      <p>A realização da visita foi acompanhada de muitas
expectativas, perguntas e até houve quem arriscasse a falar a língua ensaiando
um bom <italic>portunhol</italic>. “Tia, eu falo um
espanhol mucho bon!”, disse Pedro, estudante do 3º ano, chamando a atenção da
professora Blanca e a convidando para conversa. Ranciére nos ensina que
improvisar é o exercício da virtude primeira de nossa inteligência e que a
virtude de nossa inteligência está menos no saber do que no fazer. Para o
autor, “saber não é nada, fazer é tudo” (<xref ref-type="bibr" rid="B16">2005, p. 96</xref>) e esse ato de fazer é,
para ele, fundamentalmente ato de comunicação que, “como um poeta o homem se
comunica, um ser que crê que seu pensamento é comunicável, sua emoção,
partilhável.” Talvez seja isso que nos ensinava aquela criança, que não era o saber
a língua que estava colocada como questão para comunicação entre a criança
brasileira e a professora colombiana, mas o desejo do diálogo, da descoberta do
outro, do encontro com tudo que poderia oferecer a experiência forjada pelo
gesto da conversa. </p>
      <p>Visitando sala por sala, Blanca seguia, em cada nova
classe que adentrava despertava diferentes olhares, curiosidades e muitos
desejos de perguntar. Uma vontade de saber pela voz da colombiana o que
poderiam descobrir sobre seu país, mas também havia o forte desejo de contar
tudo o que conheciam do Brasil, de São Gonçalo e de sua escola.</p>
      <p>Das muitas perguntas, algumas ecoavam:</p>
      <list list-type="simple">
        <list-item>
          <p>“Tia, o que vocês comem na Colômbia?”</p>
        </list-item>
        <list-item>
          <p>“Lá tem praia?”</p>
        </list-item>
        <list-item>
          <p>“Aqui no Brasil a gente gosta de praia, tem muita festa e tem o
carnaval.”</p>
        </list-item>
        <list-item>
          <p>“Lá tem carnaval?” </p>
        </list-item>
        <list-item>
          <p>“Na Colômbia tem comida boa?”</p>
        </list-item>
        <list-item>
          <p>“E as escolas, são boas ou ruins?”</p>
        </list-item>
        <list-item>
          <p>“Lá na Colômbia é frio ou calor?”</p>
        </list-item>
      </list>
      <p>A professora Blanca recebeu muitas perguntas e
informações, e seguiu conversando demoradamente com as crianças, respondeu
perguntas sobre a história colombiana, os costumes, as festas. Criava-se uma
intimidade, onde ela não era mais vista como uma estrangeira, mas como uma
pessoa amiga. Ao cantarem juntos, descobriram mais uma afinidade: a canção
popular conhecida na Colômbia como “Cangrejo” foi reconhecida na versão brasileira “Caranguejo não é
peixe”. O lindo coral formado por professora e estudantes foi embalado pelo
sonido do português e espanhol. Ao final da canção, Andrea, uma criança do 2º
ano, concluiu: <italic>Vocês são muito parecidos com a gente, mas também são
diferentes</italic>! Este pronunciamento foi atravessado por muitas declarações que
demonstraram que ao passo que a interação acontecia, o envolvimento nos
aproximava. Ao final da visita da professora à escola, alguns depoimentos de
docentes relatavam o quanto se sentiram inspiradas pelas reflexões da
professora, enfatizando seu compromisso político com a escola pública,
compromisso revelado em seu fazer pedagógico.</p>
      <p>Interessante perceber que a diferença linguística não
foi empecilho para a comunicação pois, como afirma Faria “a afetividade rompe
com muitos desafios imaginado” (<xref ref-type="bibr" rid="B5">2021, p. 67</xref>). Assim sendo, embora tanto as
crianças brasileiras, falantes da língua portuguesa, e a professora colombiana,
falante da língua castelhana, ignorassem, do ponto de vista do conhecimento, a
língua uma da outra, a afetividade do encontro permitia a compreensão entre
elas pois, o vivido não exigia uma ação de tradução, mas sim um movimento de
compreensão, de conhecerem-se, de saberem suas histórias.</p>
      <p>A experiência da
visita da professora colombiana e dos docentes mexicanos à Escola Evadyr Molina
foi registrada no <italic>ebook</italic> do VIII Vozes da Educação e Democracia na
América Latina: a escola pública como um território de (re)construção
democrática, através do artigo intitulado “Andarilhagens
de docentes latino-americanos/as: processos formativos entre pares (<xref ref-type="bibr" rid="B1">2025</xref>)”. A
nosso ver, o artigo concretiza a pedagogia do encontro e o exercício formativo
entre pares latino-americanos:</p>
      <p><disp-quote><p>O grupo foi recebido na Escola Municipal Evadyr
Molina, em São Gonçalo (RJ), por crianças e professoras que abriram as portas
da escola para acolher docentes vindos do México e da Colômbia. No pátio, mesas
com trabalhos das turmas, cartazes com desenhos e frases de boas-vindas
expressavam o entusiasmo e a curiosidade das crianças. Entre risos, abraços e
cânticos, as crianças apresentaram as pesquisas que vinham desenvolvendo sobre
os países latino-americanos, num gesto de autoria e partilha. Os professores visitantes,
emocionados, dialogaram com as crianças, perguntando sobre suas escolas e suas
leituras. Em um dado momento, um menino perguntou: “Vocês têm festa de escola
como a gente tem aqui?”, e a professora mexicana respondeu sorrindo: “Temos,
mas nunca tão bonita como esta!”. O encontro, permeado por afetos, foi
atravessado por gestos de reconhecimento e escuta, em que se tornava visível o
sentido latino-americano de uma educação que se faz nas trocas e nas presenças.
(Araújo, Bampi, Lima e Faria, 2025, p. 273–274).</p></disp-quote></p>
      <p>Esse registro
reforça o que defende Jolibert (<xref ref-type="bibr" rid="B11">2006</xref>): os projetos nascem do cotidiano, das
situações reais de comunicação e da escuta sensível das perguntas e
curiosidades das crianças. O projeto tornou-se, nesse contexto, um espaço de
formação mútua, onde professores e estudantes experimentaram o aprendizado como
produção de sentidos e como prática de liberdade, no sentido freireano do
diálogo e do reconhecimento do outro. </p>
      <p>Falando um pouco
mais da experiência na visita dos professores mexicanos, o texto<italic> </italic>Andarilhagens
de docentes latino-americanos/as: processos formativos entre pares (2025),
registra que a presença desses docentes intensificou o diálogo sobre os
sentidos da escola pública e da docência em nossos territórios:</p>
      <p><disp-quote><p>Durante a visita, os professores mexicanos dialogaram
demoradamente com as docentes da Escola Evadyr Molina sobre as metodologias de
trabalho com projetos e as formas de inserção da leitura e da escrita no
cotidiano das crianças. Interpelaram sobre os desafios enfrentados no Brasil e
partilharam as estratégias utilizadas em escolas rurais e urbanas do México
para manter viva a curiosidade e o protagonismo estudantil. Em uma das rodas,
uma professora mexicana afirmou: 'O que vocês fazem aqui é resistência — transformar
o pouco em muito, o cotidiano em poesia'. As palavras dela ecoaram nas docentes
brasileiras, que reconheceram no olhar estrangeiro o valor do que produzem
todos os dias, entre carências e potências. O encontro se encerrou com um gesto
coletivo: professores brasileiros, colombianos e mexicanos uniram as mãos num
círculo, reafirmando que a docência é também uma forma de caminhar juntos.”
(Araújo, Bampi, Lima e Faria, 2025, p. 276–277)</p></disp-quote></p>
      <p>Essa travessia, que
se deu em meio a conversas, cantos e trocas de presentes simbólicos, reafirma o
que Freire (<xref ref-type="bibr" rid="B6">1996</xref>) nos ensinou: “ensinar exige disponibilidade para o encontro e
a humildade para aprender com o outro.” A pedagogia do encontro, vivida nesse
momento, revelou-se como prática concreta da interculturalidade
latino-americana, em que cada gesto de diálogo se converteu em um ato político
e formativo.</p>
      <p>A presença dos professores mexicanos, em continuidade
à visita da professora colombiana, fez a escola respirar outros ares. O espaço
foi tomado por uma mistura de sotaques, gestos e modos de pensar à docência que
desafiavam a todos a olhar novamente para o que já se vivia no cotidiano da
escola. O encontro com os mexicanos não foi apenas uma troca de experiências,
mas uma oportunidade de reconhecer que, apesar das diferenças geográficas e
culturais, partilhamos o mesmo sonho latino-americano de uma educação pública,
democrática e transformadora.</p>
      <p><disp-quote><p>Os/as professoras/es visitantes conversaram demoradamente com as
crianças, responderam perguntas sobre a história, os costumes e suas
experiências, sendo incorporados à comunidade escolar e não mais vistos/as como
pessoas estranhas ou estrangeiras. Visitantes e crianças cantaram, fizeram
registros fotográficos e belíssimas apresentações artísticas[...]</p></disp-quote></p>
      <p><disp-quote><p>[...] Professoras da escola declararam que se sentiram inspiradas pelas
práticas compartilhadas no encontro e pelo envolvimento político, indissociável
do fazer pedagógico. (Araújo, Bampi, Lima e Faria, 2025, p. 272)</p></disp-quote></p>
      <p>Essa narrativa ilustra concretamente o que Jolibert
(<xref ref-type="bibr" rid="B11">2006</xref>) define como pedagogia de projeto em movimento: uma prática que se
constrói na escuta e no imprevisível, renovando-se no contato com o outro. Não
há roteiro fixo, mas uma abertura permanente ao que surge — à curiosidade, ao
espanto, à possibilidade de reconstruir o sentido do trabalho pedagógico a
partir do diálogo. O relato da experiência vivida na Escola Municipal Evadyr
Molina confirma que o projeto, longe de ser uma metodologia estanque, se configura
como um espaço de invenção cotidiana, de humanização e de produção coletiva de
saberes.</p>
      <p>Freire (<xref ref-type="bibr" rid="B6">1996</xref>; <xref ref-type="bibr" rid="B7">2020</xref>) complementa essa perspectiva ao
nos lembrar que o encontro pedagógico é também um ato de reconhecimento: o
saber se faz nas relações, no compartilhamento de histórias e esperanças.
Quando as professoras brasileiras narram suas práticas e escutam o eco do que
há de comum no outro, reafirmam-se como sujeitos históricos, forjados no
coletivo e na experiência. A convivência com os docentes mexicanos evidencia
que o aprendizado não reside apenas no conteúdo partilhado, mas na própria experiência
de estar junto, de dialogar e de co-construir sentidos.</p>
      <p>Ao aproximar as duas vivências — com a professora
colombiana e com os docentes mexicanos — percebemos que a pedagogia se
manifesta na troca, no afeto e na atenção às singularidades. Trata-se de uma
escola que se abre ao mundo e, ao fazê-lo, se descobre parte de uma rede
latino-americana de educadores que, como diria Freire, seguem reinventando o
mundo pela palavra e pelo gesto. Assim, o diálogo entre experiência e teoria,
entre relato e pedagogia, mostra que ensinar e aprender são processos
inseparáveis da convivência, da escuta e do movimento constante de criação
coletiva.</p>
    </sec>
  <sec>
    <title><bold>Alguns apontamentos finais</bold></title>
      <p>Dentre os méritos
principais que Jolibert (<xref ref-type="bibr" rid="B11">2006, p. 34</xref>) atribui ao trabalho por projetos, alguns
nos chamaram a atenção nas propostas apresentadas: as atividades escolares
ganharam novos sentidos para estudantes e professores; o trabalho cooperativo
foi fortalecido; a comunicação entre a escola e a comunidade revelou novas
possibilidades; e a autoestima de professoras e estudantes foi incrementada em
função da visibilidade do reconhecimento do projeto. </p>
      <p>As experiências
apresentadas revelam que práticas pedagógicas comprometidas com a escuta, com o
diálogo e com a justiça social são fundamentais para a construção de uma escola
mais democrática, inclusiva e crítica. A partir da fala de Vitória, na primeira
experiência compartilhada, vimos como é possível enunciar um projeto educativo
antirracista que nasce do cotidiano escolar, sustentado por uma escuta atenta.
Esse gesto pedagógico revela a potência de uma educação sensível às vozes
silenciadas, às urgências do presente e às possibilidades de transformação.</p>
      <p>Na segunda
experiência, vivida na EM Evadyr Molina, professoras e crianças exercitaram
alguns princípios elencados por Freire em seu livro “Pedagogia da Autonomia” de
que “ensinar não é transferir conhecimento, mas criar as possibilidades para a
sua produção ou a sua construção (p.24)” e de que “Não há ensino sem pesquisa e
pesquisa sem ensino (p.32). O exercício
da curiosidade (p.94) e da criticidade (p.34), que promove a passagem da
curiosidade ingênua, à curiosidade epistemológica (p. 35) convocando a imaginação,
a intuição, as emoções, a capacidade de conjecturar, de comparar... princípios
que se davam a ver nos murais, nas apresentações, nas perguntas, nas cantorias,
no clima de alegria que a escola transpirava.</p>
      <p>Aliando a
perspectiva da Pedagogia de Projetos, conforme propõe <xref ref-type="bibr" rid="B9">Jolibert</xref> (<xref ref-type="bibr" rid="B10">1994</xref>), e os
princípios da Pedagogia Emancipatória de Paulo Freire (1989; 1996),
compreendemos que ensinar é um ato ético e político. Trata-se de promover a
leitura e a escrita não apenas como competências técnicas, mas como caminhos de
produção de sentidos e de intervenção no mundo. Ao reconhecer as experiências
dos sujeitos como ponto de partida para o conhecimento, reafirma-se o papel da
escola como espaço de formação crítica, criativa e libertadora.</p>
      <p>Enfim, tanto a
Pedagogia de Projetos, segundo Jolibert, quanto a Pedagogia Emancipatória de
Freire convocam à reflexão sobre a prática educativa como ato ético e
transformador. Ambas compreendem o ensino como processo vivo, dialógico e
contextualizado, voltado à formação de sujeitos críticos e autônomos. A leitura
e a escrita, entendidas como práticas sociais, tornam-se instrumentos de
participação e transformação. Enquanto Jolibert valoriza o protagonismo
discente nos projetos, Freire defende a alfabetização como ato político. Em
ambas as propostas, o educador deve criar condições para que estudantes se
tornem autores de suas próprias histórias.</p>
      <p>Ao ampliarmos o
olhar, percebemos que essas diretrizes se enriquecem quando articuladas às
experiências de diálogo internacional vivenciadas com docentes
latino-americanos. No caso de Vitória, por exemplo, a atenção à escuta e ao
cotidiano escolar evidenciou como projetos educativos antirracistas podem ser
gestos de intervenção social e cultural, que potencializam a construção de
saberes significativos. Da mesma forma, a vivência na Escola Municipal Evadyr
Molina com professores mexicanos e colombianos mostrou que o intercâmbio entre
culturas pedagógicas distintas permite problematizar práticas, ampliar
repertórios e fortalecer o compromisso ético da educação pública, democrática e
transformadora.</p>
      <p>Esses encontros
internacionais reforçam o que Jolibert (<xref ref-type="bibr" rid="B11">2006</xref>) aponta sobre a pedagogia de
projetos: o aprendizado se dá no contato com o imprevisível e com o outro, e a
prática educativa se transforma em espaço de invenção e experimentação
contínua. Paralelamente, a perspectiva freireana lembra que ensinar é também
reconhecer e valorizar a experiência do outro, promovendo aprendizagens que
ultrapassam fronteiras e contextos locais. Ao observar as trocas entre docentes
latino-americanos e estudantes, torna-se evidente que a afetividade, o diálogo
e a colaboração são componentes essenciais para a produção de conhecimento
crítico e para o fortalecimento da identidade coletiva de educadores e
educandos.</p>
      <p>Essas experiências
nos convidam a refletir sobre as lições que emergem quando o projeto pedagógico
se articula com práticas de justiça social e com o compromisso de formação
ética e política: a escola pode se tornar um território de intercâmbio
cultural, de fortalecimento da autoestima, de protagonismo estudantil e de
ampliação de horizontes cognitivos e afetivos. Em síntese, a integração entre
experiências locais e internacionais, alinhada aos princípios de Jolibert e
Freire, evidencia que a educação emancipa não apenas pelo conteúdo, mas pela
vivência compartilhada, pelo diálogo e pelo reconhecimento das múltiplas vozes
que constituem a comunidade escolar.</p>
      <p>Além disso, essas
experiências evidenciam que a pedagogia de projetos e a pedagogia emancipatória
não se restringem a técnicas ou métodos, mas se materializam na capacidade de
criar espaços de convivência significativa, onde o conhecimento se constrói coletivamente.
As visitas dos docentes mexicanos e colombianos à Escola Municipal Evadyr
Molina permitiram que estudantes e professoras percebessem o valor de suas
próprias práticas, revelando como gestos cotidianos, como organizar murais,
compartilhar histórias ou construir pequenas pesquisas, podem se tornar atos de
resistência pedagógica e social. Ao mesmo tempo, para os docentes visitantes,
essas trocas forneceram elementos para refletir sobre as semelhanças e
diferenças culturais, desafios enfrentados e estratégias inovadoras que
circulam em contextos latino-americanos distintos, reforçando a dimensão
transnacional da educação crítica.</p>
      <p>A articulação entre
as experiências de Vitória, as práticas antirracistas e o diálogo internacional
também reforçam a compreensão de que ensinar é sempre um ato ético, estético e
político. A escuta atenta às vozes silenciadas, a valorização das experiências
de vida dos estudantes e a abertura ao intercâmbio cultural expandem a noção de
protagonismo discente proposta por Jolibert, enquanto a perspectiva freireana
se manifesta na constante criação de oportunidades para que estudantes e
professores construam conhecimento de forma colaborativa, reflexiva e
transformadora. A presença de múltiplos sotaques, modos de pensar e gestos
docentes evidencia, de forma concreta, que a escola não é apenas um espaço
físico, mas um território simbólico de produção e circulação de saberes.</p>
      <p>Outro ponto
relevante é a dimensão afetiva e relacional desses encontros. O engajamento das
crianças e das professoras brasileiras no diálogo com docentes estrangeiros
mostrou que a aprendizagem se dá não apenas pelo conteúdo, mas pelo
compartilhamento de experiências, pela empatia, pelo reconhecimento do outro e
pela criação de uma rede de apoio e inspiração mútua. Essa dimensão relacional
fortalece a pedagogia de Jolibert ao tornar visíveis as interações, o cuidado e
o compromisso com o coletivo, e reafirma o olhar freireano de que ensinar e
aprender se realizam sempre em comunhão, na abertura para o desconhecido e na
capacidade de reinventar práticas cotidianas de forma crítica e criativa.</p>
      <p>Por fim, a
experiência vivida na Escola Municipal Evadyr Molina, articulada ao projeto
educativo de Vitória e às trocas internacionais, nos provoca a repensar a
escola como espaço de interdependência entre teoria-prática e vida social.
Ensinar torna-se, assim, um exercício de diálogo contínuo entre culturas,
histórias e saberes, e a pedagogia se afirma como instrumento de humanização,
emancipação e transformação social. A reflexão sobre esses encontros nos
convida a reconhecer que a educação crítica não se limita a um território ou a
um currículo formal, mas floresce na tensão produtiva entre o que já se sabe e
o que ainda pode ser descoberto/inventado/construído coletivamente.</p>
      <p></p>
    </sec>
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